carta aberta

não que fosse alguém de poucas palavras,
mas preferia o silêncio.
ainda assim,
quando da oportunidade de cuspir qualquer coisa,
escolhia algumas da coleção que fizera lendo tuas cartas.

havia aprendido poucas e boas
e achava graça nisso tudo.
umas quantas palavras de afeto,
duas ou três expressões idiomáticas,
e palavrões.
aos montes.
aos borbotões.

veja,
não me leve a mal:
há coisas que só uma amidalite pode fazer por alguém.

há dias já não falo direito.
abro a boca pra qualquer coisa e nada me sai a não ser um vibrato rouco
de alguém que dormiu demais.

(eu deveria ter dormido demais,)
mas não entendo.
não entendo, por deus, não entendo
por que raios mil vezes busquei minúcias nas entrelinhas,
se na verdade,
verdade verdadeira,
mil vezes
e outras mil
desejei toda minha coleção
despejada ao pé do ouvido.

Bilhete para Lucídio

fazia sentido, claro.
só eu demorei a entender teu silêncio.
(teu grito.)
teu abraço evasivo.
teu sumiço, de noite.
(de repente)
fazia sentido que fosse assim, tão breve.
(breve?)
foi tudo, menos leve, tua estadia em minha vida.
(semibreve – nota inteira).
me arranquei da cama e me arranhei as costas de saudade, aquele dia.
quem deixou você ir embora, desse jeito?
(eu. eu. fui eu.)
que ideia, meu deus…
que ideia…
(quem dera.)
amar assim alguém não pode ser tão bom.
(não.)
que bobagem…
inda faço riso bobo, lembrando teu cheiro de mar.

Querido Antônio,

existe um prazer oculto no meu ato de te escrever
prazer esse que nego em perjúrio até a morte
até amor-te
até amar-te

amei-te em cada palavra, até nas que não entendia
e o que é o amor senão uma sucessão de curiosidades?

minha paixão pelo negro revelou-se espelhada em teus rabiscos dispersos.
vai entender?
respirei sal e transpirei nanquim
escrevi, enfim.

doeu.

doeu nosso encontro
doeu tua ausência
doeu saber tua existência e não poder tocar-te.

dói todos os dias.

dói todos os dias
saber-me tão pouco.
saber-te muito e saber-me tão pouco.

só eu sei do quanto me sabes
e do inferno que isso me causa

sei-me couraça
e pronto.

basta.

Lucídio,

Reli tua carta, hoje.
E deu saudade.
Não aquela saudade vã, propriedade das tuas outras companhias, mas aquela que nos pertencia e que nos embebedava a todo instante, no apartamento da Avenida Passos.
Saudade, quiçá, daquilo que nem sei.
Não vejo.
Não vejo mais.
Não mais.

Teu casaco ficou aqui em casa, no mancebo perto da janela. Acordei e, veja só!, dei de cara com ele vendo a cidade fervilhar.
Por um instante, não nos falamos. Não quis interromper a bonita aleg(o)ria… Mas de repente a nostalgia era tanta que eu tive que trocar teu lado na cama por um minuto mais ao lado teu.
Levantei-me, num pulo.
Ouvi tua gargalhada me seguindo pelo quarto, e tua voz inda sonolenta dizendo qualquer coisa debochada sobre minhas demonstrações de afeto.
Fingi que não ouvia, mesmo em devaneio.
Enlaçamo-nos, então, e como se não houvesse nada mais desimportante no mundo, vesti-me de você e fomos tomar café.

Você sumiu depois daquela tarde, no centro.

Te procurei em cada beco, mas o máximo que consegui foram algumas noites de insônia.
Fiquei pensando…
Se talvez minhas ânsias tenham sido demais…
Não mais.
Entendo se te coloquei avesso, mas peço perdão pelas minhas pernas tortas.

A última lembrança delas foi uma lembrança nossa…

 

A chave inda tá no mesmo lugar.
Teu casaco também.

Inda lembro teu toque, meu bem.
Lembro bem.
Não some.

Tua,

Domitila.

Carta para a posteridade

São Paulo, 9 de novembro de 2013.

Ao som de Shake it Out – Florence.

Se um dia me perguntarem como eu sobrevivi à faculdade de jornalismo, eu vou dizer: “não sei, só sei que foi assim…”

Com um bom par de tênis e os melhores amigos que alguém poderia pedir. Porque onde raios eu ia encontrar alguém que topasse andar pelo centro de São Paulo vestindo roupas dos anos 40, ou que mesmo depois de um exaustivo ano de trabalho de conclusão de curso, ainda aceitasse a minha companhia para um cinema?

Se um dia me perguntarem como eu sobrevivi à faculdade de jornalismo, eu vou dizer que foi com muita comédia romântica e alguns copos de Starbucks. Vou fizer que gastei uns quantos centavos, mas ganhei presentes impagáveis.

Vou dizer que comi muitas besteiras.
Ouvi muitas besteiras.
Falei muitas besteiras, tantas que nem me lembro.

Vou dizer que bom humor é fundamental, mas nem sempre está presente quando queremos.
Vou dizer que quando o bom humor não vem, quem não pode ir embora de jeito nenhum é o respeito.

Porque de nada valeria o percurso se não houvesse um carinho extremo e um respeito levado até as últimas consequências…
Mesmo…

Quando me perguntarem “por que Jornalismo, se você nasceu pra ser teatrista?”, não vou mais dizer que foi tudo uma insistência maluca da minha coordenadora do Ensino Médio. Quando me perguntarem – por que Jornalismo? – Por que voltar pra faculdade agora quando tudo já está encaminhado?, eu vou lembrar delas e vou dizer:

POR QUE NÃO?

Por que não encarar a rotina exaustiva de aula – aula – ensaio – aula?
Por que não aceitar o documentário – tão familiar – como tema de trabalho de fim de curso?
Por que não aceitar a orientadora?
Por que não ouvir Glee pela centésima vez? Ou por que não ver Disney pela centésima vez?
Por que não dar o mesmo conselho pela centésima vez ou ouvir o mesmo conselho pela centésima vez, ou fazer o mesmo caminho pela centésima vez?

Quando me perguntarem por que Jornalismo, eu vou responder:

– Porque eu escolhi o pior grupo de trabalho que eu poderia ter.

O que não deixa de ser verdade, porque, bem, todos lembram dos primeiros dias de aula…

Quando me perguntarem por que eu continuei, não vou mais dizer que foi (só) para eu poder fazer minha especialização em Artes Cênicas.

Vou dizer que foi por vocês.
E foi.
E sempre será.
Porque não há outro lugar no mundo, não há outra companhia com a qual eu me identifique, outro jeito de ser – tão único e tão especial – quanto esse…
Esse jeito esquisito dessas Garotas de Tênis…

Cuja maior ousadia foi acreditar piamente que insistir naquele velho par de All Stars era um ato revolucionário.

Queridas meninas,

Obrigada.

Vocês serão eternamente lembradas.
Em minha vida,
Em minha arte,
Em tudo o que sou.

Amo vocês.

Com carinho,

Eu.

[Texto originalmente escrito em papel de rascunho numa Olivetti Lettera 82, presente de aniversário dado pelas Garotas de quem falo nesta carta.]

Querido Carlos,

Se não falar de acontecimentos, Carlos, falarei do quê?
Quando poesio, crio e morro todo dia.
Diante das letras, a vida é um sol pulsante
Não só aquece: alumia.

Afinidades, aniversários, incidentes pessoais não contam – vivem.
Faço poesia com o corpo
Esse excelente, completo e desconfortável corpo, tão propenso à imersão lírica.
Minha gota de bile, minha careta de gozo ou dor no escuro
São inerentes.
Não só revelo meus sentimentos
Que se prevalecem de equívoco e tentam a longa viagem
Mas o que penso e sinto, sim, isso é poesia.

Se não cantar minha cidade, Carlos, cantarei o quê?
O canto se faz no movimento dos carros e no segredo das casas
Não é música ouvida de passagem, mas movimento intrínseco do cidadão,
barulho constante e vivo nas ruas junto ao meio-fio.

O canto não é só a natureza,
Mas os homens também formam a sociedade.
E para mim, Carlos, chuva e noite, fadiga e esperança tudo significam.
A poesia – não me tires a poesia das coisas –
Exige sujeito e objeto.

Ah, eu dramatizo! E invoco, indago – mas não perco tempo em mentir.
Eu me aborreço.
Porque sei que um camafeu de marfim, um sapato de boneca,
A valsa da madrugada, as histórias de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

Se não falar de infância, Carlos, falarei do quê?
Minha infância colorida e ainda viva
Que vivo todos os dias em recordação
Se recordei, era poesia
Se ainda ficou, tão pó não era.

Penetro surdamente no reino das palavras
E sei e sinto e amo todos os poemas que esperam ser escritos.
Não estão paralisados: estão em movimento
Há alma e frescor na superfície inata
Ei-los completos e afoitos, em estado de vocabulário.

Convivo com meus poemas, antes de escrevê-los.
Espero, se obscuros. Clamo, se me provocam.
Espero que cada um se realize e consuma
Com seu poder de palavra
E seu poder de silêncio.
Não forço o poema a se desprender do limbo.
Nem colho do chão o poema que se perdeu.
Não adulo o poema. Amo-o
Como ele acalantará nossas inquietudes de forma indefinida e presentificada
No espaço.

Chega mais perto, Carlos, e contempla estas palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, com certo interesse pela resposta,
nobre ou sofrível que lhe deres:
Trouxeste tua parte?

Repara:
Repletas de melodia e conceito
Elas passeiam na noite, as palavras.
Ainda insones e impregnadas de medo,
rolam num rio longínquo e se transformam e apreço.
Porque se eu não falar de tudo isso, Carlos, do que mais falaria?
Tire de mim as palavras e findará a vida minha.

[Em resposta a “Procura da Poesia”, de Carlos Drummond de Andrade].

Querido Théo,

Por muito tempo não te escrevi.

Não sei se por falta de criatividade ou por medo de te encontrar em alguém, na rua. Seu rosto começou a ficar claro demais pra mim. E talvez justamente disso eu tenha medo.

Cora repousa triste, em minhas folhas de papel. Também faz tempo que não dedico algumas palavras a ela.

Não sei se por falta de criatividade ou por medo de encontrá-la em mim, no espelho. Talvez seu rosto tenha começado a ficar claro demais pra mim. E talvez justamente disso eu tenha medo.

De ser Cora.

De ser Cora sem Théo. Sem o cheiro de eucalipto me embriagando no fim da tarde da fazenda, sem os cochichos na cozinha, os balanços na rede e aquela noite chuvosa em que nos refugiamos no chalé abandonado. Sem o baile de máscaras no celeiro, os passeios a cavalo e o dia em que quase te perdi.

Théo.

Seu nome soa familiar como a melodia que me despertou para essa carta.

Querido Théo.

Já te conheço e, no entanto, não sei quem você é.

Eu te amo.
Apareça.

Querido Earl,

Gosto do seu cheiro. Do seu gosto. De como você esquenta minhas mãos e meu corpo, quando chegamos perto um do outro. Cada vez que lembro de você, tenho certeza de que nossa relação não é dessa vida.

Lembro de outras vidas –  nossas tardes de outono, no jardim, nossos pique-niques no parque em dias quentes de verão, as noites frias nas quais nos encontrávamos furtivamente, na cozinha… E de como as flores ficam mais bonitas se você está comigo.

Essa semana, com o nosso encontro, depois de tanto tempo, percebi que te quero em todos os momentos.

Só peço que me perdoe…
Bisnaguinhas com requeijão tiraram toda a sua exclusividade.Nosso ritual nunca mais será o mesmo.

Mas agora que lembrei da sua existência, anseio pelas 17h todos os dias.

Com amor,

Domitila